05 DEZ 2024 • EMPREGO
O trabalho não remunerado realizado pelas mulheres, que envolve atividades como cuidados com os filhos, com outros membros da família e tarefas domésticas, representa uma contribuição significativa para a economia, caso fosse contabilizado em termos financeiros. De acordo com uma pesquisa das economistas Isabela Duarte Kelly (UFRJ) e Hildete Pereira de Melo (UFF), se essas atividades fossem remuneradas, poderiam agregar entre 8% e 15% ao Produto Interno Bruto (PIB).
Além disso, a pesquisa revela que o impacto desse trabalho não remunerado é mais expressivo para as mulheres do que para os homens. Enquanto as mulheres poderiam representar uma contribuição de 8% a 15% ao PIB, os homens, caso as horas dedicadas às atividades domésticas e de cuidado fossem remuneradas, acrescentariam entre 3,5% e 7,5% ao PIB. A diferença está no fato de que as mulheres tendem a dedicar mais tempo a essas atividades do que os homens, o que explica a maior contribuição delas ao PIB, caso esse trabalho fosse remunerado.
Esses números também variam conforme o valor atribuído à hora de trabalho, considerando diferentes faixas salariais. Este estudo destaca a relevância de reconhecer o trabalho doméstico e de cuidado, muitas vezes invisível, e a desigualdade entre os gêneros nesse tipo de atividade.
Para calcular o impacto econômico do trabalho não remunerado realizado pelas mulheres, as pesquisadoras Isabela Duarte Kelly e Hildete Pereira de Melo utilizaram os dados sobre as horas dedicadas a atividades domésticas e de cuidado, com base em pesquisas de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essas informações foram coletadas entre 2016 e 2019, refletindo o tempo médio gasto por cada sexo nessas tarefas.
A pesquisa considerou dois cenários para estimar o valor do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados:
De acordo com o IBGE, em 2019, as mulheres dedicavam, em média, 21,4 horas semanais (aproximadamente 21 horas e 24 minutos) ao trabalho doméstico e de cuidados, enquanto os homens dedicavam apenas 11 horas semanais. Esses números representam uma diminuição ao longo do tempo: em 2001, as mulheres gastavam em média 29 horas por semana com essas atividades, mas esse número caiu ao longo dos anos, estabilizando-se entre 20 e 21 horas nas últimas medições.
Em comparação, os homens mostraram uma variação mínima no tempo dedicado ao trabalho doméstico, mantendo uma média em torno de 10 horas semanais desde 2001.
O estudo, publicado na revista da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet), destaca o valor econômico do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados, muitas vezes invisível, e aponta as desigualdades de gênero nessa esfera. As pesquisadoras consideram que, embora seja desafiador encontrar uma maneira exata de quantificar esse trabalho não pago, os valores utilizados, com base nos salários de empregadas domésticas e de mulheres no mercado de trabalho, fornecem uma estimativa realista para ilustrar a contribuição econômica do trabalho doméstico.
Esses dados não só refletem a desigualdade no tempo dedicado ao trabalho doméstico entre os sexos, mas também enfatizam a relevância de políticas públicas que reconheçam e valorizem o trabalho não remunerado, essencial para o funcionamento da sociedade e da economia.