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07 JUL 2021 • Cultura

De Kathryn Bigelow a Chloé Zhao: um panorama das mulheres na indústria cinematográfica contemporânea

Autora

Letícia Castor - Redatora

Eu tinha apenas 13 para 14 anos na época, naquele 7 de março de 2010. Lembro de ver uma propaganda na TV Globo sobre a transmissão do Oscar e, como quem não quer nada, reservei meu precioso domingo para assistir. Desde aquele dia, posso dizercomconfiança que a minha vida não foi mais a mesma.

Mal entendia inglês, mas ainda assim, fui fisgada por cada momento da premiação. Não estou aqui para enaltecer a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, vulgo Oscar, que bem conhecemos já seus mecanismos de escolha e seu histórico excludente em quase todos os sentidos. Mas, para uma menina de 14 anos, foi uma noite e tanto.

A coreografia de Up - Altas Aventuras que vi no cinema com meu pai - que, posteriormente descobri que era costumeiro para a academia performar as trilhas sonoras indicadas -, o discurso emocionado de Sandra Bullock ao levar o prêmio de Melhor Atriz Principal (vamos deixar o filme em questão de fora? senão…), e, me lembro como se fosse ontem, Barbra Streisand subindo ao palco para revelar quem levou o prêmio de Melhor Diretor. Tínhamos dois candidatos fortes e que seriam pioneiros ao seu modo: Lee Daniels, com seu filme atemporal, “Preciosa”, que seria o primeiro diretor negro a levar a estatueta, e claro, Kathryn Bigelow, pela sua obra Guerra ao Terror, que se tornaria, de fato, a primeira mulher a levar o prêmio para casa.

Barbra abriu o envelope e disse: “a hora finalmente chegou: Kathryn Bigelow”.

A plateia foi à loucura, os jornalistas que cobriam o evento e eu, no sofá da minha casa, fui também. Eu mal sabia do que se tratava a premiação, muito menos sobre o que era o filme da vencedora, que, por sinal, também recebeu o prêmio de Melhor Filme naquela noite, mas, ainda assim, eu sabia que estava presenciando um momento histórico.

Me emocionei dos pés à cabeça vendo aquela mulher subir ao palco. Chorei muito sem nem saber o porquê. Mas desde então, acompanho a indústria de forma assídua. O que justifica o motivo de eu não abordar a fundo o cinema brasileiro neste texto. Temos nomes incríveis, como Petra Costa, Laís Bodanzky e Suzana Amaral, por exemplo, aqui me atentarei à indústria hollywoodiana, que acaba por ditar muito do que irá reverberar no resto do mundo.

Vi o movimento #MeToo ganhar força e derrubar um gigante do poder. Vi um filme sobre um preto homossexual e do gueto arrancar o prêmio principal de um musical água com açúcar. O Oscar aprendeu com os seus erros e eu, me formei em jornalismo para quem sabe um dia, falar com mais propriedade sobre esta arte que por uma década tem me cativado.

Lá vem história…

O Oscar completou em 2021 93 anos. 93 anos de história, vitórias inesquecíveis e injustiças que não dá para contar nos dedos. Sabe quantas mulheres, ao longo destes 93 anos de existência, foram indicadas ao prêmio de Melhor Diretor?

Sete.

  • Lina Wertmüller - Pasqualino Sete Belezas (1975).
  • Jane Campion - O Piano (1993).
  • Sofia Coppola - Encontros e Desencontros (2003).
  • Kathryn Bigelow - Guerra ao Terror (2008).
  • Greta Gerwig - Lady Bird: A Hora de Voar (2017).
  • Emerald Fennell - Promising Young Woman (2020).
  • Chloé Zhao - Nomads Land (2020) - Vencedora.

 

Note que, destas sete, tivemos um considerável espaço entre elas. De 1975, a próxima indicação foi somente em 1993, mais de 20 anos depois. E 10 anos após a obra de Campion ser nomeada, tivemos Sofia Coppola, que abriu os anos 2000 com uma obra que flertava com o indie antes mesmo dele existir. O íntimo, sutil e despretensioso “Encontros e Desencontros”. Após Sofia, os anos 2000 sofreram, ainda que lentamente, uma mudança na perspectiva dos votantes e filmes com pouco espaço entre si foram indicados. As duas últimas, Emerald Fennell e Chloe Zhao foram indicadas no mesmo ano, algo que nunca aconteceu.

No início, ao citar Bigelow e seu triunfo em 2010 sendo a primeira mulher vencedora da categoria, não o fiz apenas para compartilhar uma memória afetiva qualquer. Bigelow ganhou seu prêmio por Guerra ao Terror, um drama sobre os soldados que retornaram da Guerra do Iraque e o que vivenciaram neste período. Um filme respeitável, um gênero querido da academia, mas ainda assim, que contava a história de homens. De uma população, sim, de um crime contra a humanidade, porém, ainda sob a perspectiva masculina.

 

Por que estou citando isso?

Porque a próxima vencedora, que se deu em 25 de abril deste ano, 11 anos depois de sua predecessora, resolveu contar uma história diferente.

Uma história de ritmo lento que não se prende à famosa jornada do herói. É um filme sobre uma mulher de meia idade, sozinha, e suas experiências nas estradas estadunidenses em sua vida como nômade. Este filme é, acima de tudo, sobre escolhas. Sobre como aquela mulher escolheu aquela vida, tão peculiar aos paradigmas da sociedade, e a viveu plenamente, sem atender expectativas de terceiros. E tudo isso, sob o olhar da mulher. Das mulheres, no caso. Chloé Zhao, que quebrou dois paradigmas em uma só noite ao ser a primeira asiática a ganhar o prêmio também, é, claro, da protagonista, que exibe aquela vida à sua maneira, seus olhos.

 

Percebe a mudança?

Ela é lenta, mas acontece. Greta Gerwig fez o mesmo ao contar a história de uma adolescente e seus dilemas com Lady Bird, Sofia Coppola, ainda que com um casal não-romântico como protagonista, já explorava mais, lá em 2013, a ótica da protagonista e sua solidão, assim como Emerald Fennel contou, em poucas palavras, a história de uma mulher abusada que busca por vingança.

De pouco em pouco, vemos algo se mexer debaixo daquele enorme tapete vermelho opaco, gasto e obsoleto. Se pouco depois da pressão do movimento #OscarsSoWhite em 2016, que buscava boicotar a premiação por só ter indicados brancos em todas as categorias principais, vivenciamos o marco do primeiro filme não falado na língua inglesa, o fenômeno “Parasita”, levar diversas estatuetas, incluindo Melhor Diretor para Bong Joon-ho e Melhor Filme, quero acreditar que há esperança para a indústria.

E, há poucos meses, a história das mulheres e minorias nesta indústria ganhou mais uma página com Chlóe Zhao, diretora, roteirista e olhar cansado e expressivo de Frances McDormand, nossa protagonista, contadora de sua própria história.

Em 2020, falando ainda sobre a vitória de Parasita, escrevi o seguinte trecho em um blog pessoal.

“Em tempos de governos imperialistas que prometem a construção de um muro para a separação absoluta de povos diferentes, presenciar uma premiação que é extremamente conservadora por tradição ir contra a maré do próprio estado e não alimentar mais o discurso xenofóbico de seu líder é algo gigantesco. O prêmio de ontem, assim como o de Katheryn dez anos atrás, deixou, acima de tudo, uma mensagem: assim como mulheres podem assumir a direção e criar obras espetaculares, a indústria cinematográfica não será mais um monopólio norte-americano. As luzes dos holofotes alcançarão o mundo todo, todas as etnias, culturas, crenças e riquezas. É só uma questão de tempo para que elas cheguem cada vez mais longe.”

Relendo isso hoje, percebo o tamanho da minha inocência. A indústria é muito maior e, infelizmente, mais suja do que isso. Mas há suas belezas também. Momentos como de Kathryn e Chlóe merecem ser celebrados, relembrados, revisitados sempre. A história não precisa ser usada somente como lição para não cometermos os erros do passado, mas também, para um otimista declarado, olhar os poucos nuances de avanço, de humanidade, de sensibilidade e alteridade e extrair uma mensagem positiva disso tudo.

Às vezes, é necessário, ainda mais no campo das artes. Qualquer que seja sua forma, ela sempre será uma forma de resistência. E se queremos resistir sem perder a nossa sensibilidade, uma visão promissora do futuro cai bem.

Uma coisa é certa: temos e teremos gerações de mulheres maravilhosas para trilhar este caminho conosco, seja no cinema, na música, na escrita. Há pouco espaço na história para nós, mas ainda somos mais fortes, incisivas e corajosas demais para ela nos ignorar. Eles, os detentores dos meios de comunicação e produção