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02 NOV 2018 • TEXTOS COLABORADORAS

Por que precisamos do feminismo interseccional

Autora

Anna Gabriela Teixeira

A expressão “fardo do homem branco” é baseada em um poema homônimo, de Rudyard Kipling, que trata da suposta carga carregada por homens brancos europeus, que teriam como obrigação moral colonizar os não-brancos e ensiná-los a ser civilizados. Essa ideia foi usada como justificativa para o colonialismo europeu, pois, de acordo com ela, o objetivo do mesmo não seria lucrar em cima das colônias nem impor uma cultura, e sim espalhar valores morais que tirassem esses povos do atraso econômico, moral e religioso. Não é sequer preciso explicar o quão problemática é a ideia, mas, é assim que agimos ao ignorar as vozes de mulheres com vivências diferentes ao tentar impor-lhes as nossas ideias. Daí vem a importância do feminismo interseccional.
O feminismo interseccional, em resumo, é um ramo do feminismo que leva em consideração que o gênero não é a única forma de opressão, e por isso mulheres brancas de classe média alta tem necessidades e reivindicações diferentes daquelas de mulheres negras que vivem nas periferias. Para entender e atender todas as mulheres, e assim almejar um mundo realmente igualitário, devemos levar em consideração essas diferenças, caso contrário, o feminismo estará fadado a se tornar uma corrente elitista e que ignora a imensa maioria das mulheres.
O feminismo no Oriente Médio tem reivindicações diferentes das ocidentais e é justamente quando se trata de mundo oriental que muitas vezes cometemos diversos erros. A questão da burca é um ótimo exemplo.
Em geral, nós, ocidentais cristãos, vemos a burca como um símbolo de opressão e controle sobre o corpo da mulher, confinando-a em uma vestimenta padronizada e de uso obrigatório, que restringe a forma como essas mulheres se veem e são vistas nos espaços públicos. Entretanto, o que essas mulheres pensam? Não estou aqui para condenar nem defender a burca, e sim para lembrar que essa decisão cabe a quem vive essa realidade. Por mais que seja difícil para nós acreditarmos que alguém use esta peça por vontade própria, não devemos esquecer que não fazemos parte daquele contexto cultural e por isso essa decisão não cabe a nós.
Ao tratar as mulheres islâmicas como vítimas incapazes de ver a própria opressão, além de agirmos com a arrogância típica de ocidentais brancos, tiramos a agência destas mulheres. Ignoramos suas lutas, suas conquistas, seu trabalho diário e as tratamos como pessoas incapazes de tomar as próprias decisões que precisam de alguém que pense por elas e lhes mostre o que realmente devem fazer. Em “As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus outros”, Lila Abu-Lughod discute a forma como mulheres muçulmanas são vistas e tratadas no dito mundo ocidental, atentando para como aqui também há regras rígidas de vestuário e como é preciso entender todo o contexto histórico e cultural que formaram essas nações.
Lila lembra que muitas vezes essa ideia de que precisamos salvar as mulheres islâmicas tem um fundo racista: precisamos salvar as muçulmanas dos homens muçulmanos, como se os homens não-muçulmanos não cometessem violências diariamente. A misoginia que move um homem que proíbe a namorada de usar determinada roupa é a mesma que move o homem que obriga a esposa a usar a burca. O problema não será resolvido abolindo uma religião ou uma peça de roupa e sim abolindo a misoginia. Essa é a luta que temos em comum e não a guerra do vestuário.
O mesmo pensamento se aplica a questão da prostituição e pornografia. Não tenho, novamente, uma resposta pronta para esse debate, mas é impossível falar sobre isso sem ouvir prostitutas, atrizes pornô e profissionais do sexo em geral.
Grandes pensadoras do feminismo, como Andrea Dworkin, condenam toda forma de trabalho sexual pelos males que os acompanham: abuso sexual de mulheres e crianças, tráfico de pessoas, violência física e psicológica. No livro de 1979 “Pornography: Men Possessing Women”, Dworkin se refere a pornografia como sendo “a destruição orquestrada de corpos e almas de mulheres; estupro, agressão, incesto, e prostituição a impulsionam; desumanização e sadismo caracterizam-na; ela é a guerra sobre as mulheres, violações em série na dignidade, identidade, e valor humano; ela é tirania”.
Porém, do outro lado temos pessoas como Gabriela Leite, que lutou pelo fim da perseguição policial às prostitutas e pela legalização da profissão como forma de combater os problemas associados ao mercado do sexo. Em entrevista para a Revista Trip em 2012, ela trata da PL que leva seu nome e afirma: “Nossa ideia é tirar do código penal todos os artigos que criminalizam a prostituição, para que o empresário da prostituição possa ficar na legalidade, pagar todos seus impostos e tratar a prostituta com os direitos que ela tem”. Gabriela vê a prostituta como uma profissional que deve ter seus direitos trabalhistas respeitados. Ela não acredita nem aceita a visão de que toda prostituta é uma vítima incapaz de entender a própria opressão. Nesta mesma entrevista ela declarou: “Eu gosto muito de ser avó. Mas também gosto muito de ser puta.”
Tanto Dworkin quanto Gabriela Leite trabalharam como prostitutas, mas desenvolveram ideias muito diferentes a respeito. No caso da burca também não há um consenso.
Se Lila Abu-Lughod não vê problemas em seu uso, Pollyana Meira, ativista do feminismo islâmico, a condena como uma forma de opressão e defende o fim, não só do uso de burcas e véus nas ruas, como também dentro de mesquitas. Em artigo para a Carta Capital de maio deste ano ela se manifesta a respeito da questão: “Defendemos que existem muitos problemas e que muita coisa precisa ser debatida e mudada, no exercício de nossa religiosidade. Não enxergamos o véu como algo feminista, libertador ou empoderador, nem mesmo o reconhecemos como uma escolha, pois não existe escolha quando algo é religiosamente e socialmente imposto. Não acreditamos que nossos cabelos e todo nosso corpo, como é ensinado pelo clero, seja parte da nossa nudez, e que devemos nos cobrir para controlar a libido do homem.”
Isto mostra como são complexas e plurais as experiencias dessas mulheres, o que torna ainda mais importante a interseccionalidade dentro do feminismo.
Essa talvez seja a grande dificuldade do feminismo hoje: conseguir abranger todas as mulheres, em suas diferentes formas e vivências. É impossível que um movimento consiga criar “soluções” para mulheres do mundo inteiro sem levar em consideração as diferentes pessoas envolvidas nele. É preciso ouvir as mulheres do Oriente Médio, as mulheres asiáticas, as mulheres transgênero, as mulheres muçulmanas, as mulheres que trabalham com sexo, enfim, todas, e dar ouvidos as suas necessidades, mesmo quando elas parecem não fazer sentido para nós. Ao ignorar as experiências de mulheres periféricas, não brancas nem cis, estamos passando por cima de problemas reais. E pior, afastamos o feminismo daquelas que são a sua razão de existir: as mulheres.

REFERÊNCIAS

https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/feminismo-islamico-transforma-a-vida-da-mulher-muculmana/
http://justificando.cartacapital.com.br/2018/05/23/feminismo-islamico-breve-apresentacao/
http://blogueirasnegras.org/2015/09/29/feminismo-interseccional-um-conceito-em-construcao/
http://blogueirasfeministas.com/2014/07/feminismo-intersecional-que-diabos-e-isso-e-porque-voce-deveria-se-preocupar/
http://daspu.com.br/gabriela-leite/
http://www.naomekahlo.com/single-post/2016/05/05/Vai-ser-feminista-no-Oriente-Médio-dizem
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2012000200006
https://revistatrip.uol.com.br/homenageados/2012/gabriela-leite