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18 ABR 2019 • TEXTOS COLABORADORAS

Os retratos rotos de Julia Lana

Autora

Bruna Alcantara

Graduada em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná, a artista curitibana Julia Lana se arriscou alguns anos pelo mundo da moda e como ilustradora na capital paranaense. Mas, foi em 2016, em Barcelona, enquanto cursava o mestrado em Criação Artística Contemporânea, que Julia se envolveu com o ceramismo. De lá pra cá, com o projeto Retratos Rotos (Retratos Quebrados, em português), ela documenta mulheres através de moldes de seus seios.
A palavra Retrato faz referência à fotografia analógica, que consiste em tirar o negativo da imagem e revelá-la através de um processo manual para que o positivo seja desvelado. É o que acontece nesse processo também: o negativo é tirado com gesso diretamente do peito da mulher, e o positivo é revelado através da cerâmica. 

1 - De onde veio a ideia de fazer esta série? 

Retratos Rotos  surgiu de uma peça única, que inclusive foi uma das primeiras peças que criei em cerâmica, durante um curso de extensão que tive a oportunidade de fazer na Escola de Arte La Industrial, em Barcelona. Nessa época estava terminando a minha tese de mestrado em Arte Contemporânea na Universitat de Barcelona e o trabalho final se tratava de uma série de autorretratos. Até então só trabalhava com desenho e um pouco de pintura, mas surgiu essa chance do curso curto de cerâmica e decidi me aventurar para experimentar um pouco a (tão temida por mim) tridimensionalidade. Como já estava trabalhando com autorretratos, cartografei o meu próprio corpo, mapeando cicatrizes, doenças, dores permanentes - registros do meu corpo que contavam a minha história. Foi também o meu primeiro contato com os moldes de gesso, trabalhando em casa sem saber ao certo como manejar o material (e para a tristeza do meu companheiro de apartamento, fazendo uma sujeira imensa). A sujeira valeu a pena: uma dessas peças era a minha teta esquerda, onde tenho um cisto há anos. Toda essa série de cerâmica foi jogada fora por engano durante a limpeza do atelier da universidade e desse episódio surgiu, bem despretensiosamente, o nome Retratos Rotos (que significa quebrado/rompido em espanhol). Acho que é por isso que eu gosto desse nome, por que ele já tinha o conceito de “quebrado” antes mesmo de eu começar a trabalhar mais intensamente com a cerâmica e seu eterno romper. Foram muitas tetas quebradas, mamilos desprendidos, peças que quebraram no caminho para o forno ou derreteram dentro dele. Um processo intenso de experimentações com a matéria que caminhou junto com o meu próprio processo de libertação pessoal e, principalmente, corporal. O topless liberado nas praias de Barcelona ajudou - e muito!! - esse processo. Acho que foi uma das primeiras vezes que me despi em local público e completamente diversificado, numa cidade cosmopolita que recebe muitos turistas em todas as épocas do ano. Eu, que não saía de casa sem sutiã pra evitar o farol aceso por vergonha, me senti muito à vontade com o meu corpo, especialmente por observar outras mulheres que se sentiam muito à vontade também, ali com seus corpos normais e na maior parte das vezes bem fora dos padrões de beleza e erotização que já conhecemos bem. Foi aí que eu parei para assistir o - outro - corpo feminino sem aquela dose colonizada e católica de pudor e comecei a tratar aquilo com a naturalidade merecida. Isso me fez pensar na importância de registrar essa imensidade de biotipos, todos belíssimos em suas particularidades e foi então que convidei algumas amigas que estavam vivendo esse processo todo comigo para retratá-las, registrar aqueles momentos de troca através da cerâmica, escultural como nossos corpos. E então comecei algo que não tenho a mínima intenção de cessar. 



2 - Aprender a aceitar o proprio corpo é um processo longo e dificil para a maioria das mulheres. 
Para você, de que maneira a série Retratos Rotos naturaliza essa relação nas mulheres que participam da experiência? 

Eu creio que o despir-se, em todos os níveis que essa palavra pode funcionar, é um processo difícil, porém sem volta. Despir-se fisicamente, socialmente, emocionalmente. O despir-se corporal é uma dessas fases, e pode estar encaixada em momentos distintos da vida de uma mulher. Registrar isso em matéria, em cerâmica, é uma maneira que encontrei de congelar o momento daquela mulher. O motivo pelo qual ela decidiu mostrar as tetas e vê-las expostas de alguma maneira. A experiência feminina. Eu vejo e uso a arte como ferramenta de registro dessa experiência. 
A própria história da arte nos mostra o corpo feminino como mero objeto de observação, desejo ou inspiração. É a partir dos anos 60, não por acaso com a ascensão de mulheres artistas, que o corpo feminino começa a ser visto a partir de uma outra perspectiva. Yves Klein com suas ‘Anthropométries’, convida mulheres nuas, pinta seus corpos com o pigmento de sua autoria, e as “carimba” em uma tela de pintura. Isso tudo foi registrado como “happening”, com orquestra, convidados e modelos escolhidos à dedo. Eu vejo essa obra como um ponto inicial importante em que o público de arte começa a ver o corpo feminino em ação, não apenas representado bidimensional ou tridisimensionalmente: estático, parado, perfeito. Ainda assim, foi necessário um homem para colocar-nas nessa posição e ele, por motivos pessoais e culturais, optou pelo nosso velho (porém sempre atual) padrão de beleza. Mulheres jovens, magras, brancas. Agradeço à nosso Klein (especialmente pelo pigmento), mas ele também me ensinou que um homem falando/retratando/representando uma mulher, nunca estará fielmente tratando sobre a experiência feminina. É por isso que a Frida Kahlo é e sempre será uma das minhas principais referências. Porque ela coloca a experiência feminina em voga. Ela usa a pintura como registro do que ela estava vivendo. Sua personalidade, seus ideais, seus abortos, suas críticas, suas relações, suas limitações físicas e psicológicas, sua visão desse mundo caótico. Está tudo registrado, é a vida de uma mulher registrada através da arte. E é isso que eu busco ao usar a cerâmica pra retratar as mulheres: registrar aquele corpo que existe agora, aquele momento, a subjetividade inerente à imagem de uma teta. 

3 - Se falarmos em fases, como é o seu processo de escolha das mulheres a serem retratadas? 

Meu processo de escolha, até agora, se trata basicamente de buscar mulheres que estejam no processo de “despir-se”, seja lá qual for o nível ou motivo. Acho que as mulheres que retratei até agora buscavam todas algo em comum: congelar aquele momento de aceitação do próprio corpo, ver sua própria teta de outra perspectiva, ver a reprodução fiel do seu corpo em algum outro lugar que não nele próprio. E isso nada mais é que o registro da experiência feminina, e por isso acredito que cada mulher retratada, cada teta em cerâmica que eu revelo, é uma maneira de eternizar isso, esse biotipo atual, essa experiência, esse tempo em que vivemos.  


4 - Por que a série se encaixa no âmbito das ações performáticas? / É importante para você que as mulheres se reunam em grupo para que os moldes sejam feitos ou que haja público? 

Eu chamo Retratos Rotos de um processo “cambiante”, principalmente pelas oportunidades distintas que ele me oferece no processo de “tirar o molde”, de ter aquela mulher desnuda na minha frente e de tentar entender aqueles anseios, ainda que momentâneos. Me alegra saber que posso ter uma experiência X ou Y tirando o molde de uma mulher na casa dela, ou no meu chuveiro, ou numa casa colaborativa, ou na vitrine de um bar que fica em uma rua movimentada. O escambo de vivência e informações sempre vai existir, e o ambiente sempre vai influenciar na maneira como essa troca acontece, determinando se ela vai ser mais íntima ou criando relações de conforto, segurança, proteção, sororidade entre mulheres que até então não imaginavam conhecer umas às outras. 

As mulheres que participam desse processo comigo estão ali, despidas. Mas cada uma em um nível diferente daquele despir. E eu adoro isso e acho uma parte importante do reunir-se em grupos. A troca entre uma e outra, entre as pessoas que tem essa intenção e eu, que tenho uma intenção diferente. Gosto muito também dos processos individuais, quando eu retrato uma mulher só, em que acontece uma troca muito mais íntima e profunda com as retratadas. Mas quando rola o encontro, o grupo, é diferente. Eu trabalho cada vez mais pra que esse encontro aconteça da maneira mais espontânea e natural possível, pra que essas mulheres possam se encontrar, se reconhecer e ver nesse “ato” um ambiente seguro para trocar experiências e verdades. 


5 - ocê classifica seu trabalho como feminista? Por quê?

Sim, como feminista, tento sempre defender a igualdade e a liberdade em minhas atitudes diárias, seja com amigas, família ou homens e mulheres com que me relaciono em distintos níveis. É algo bem visceral, e por isso acredito que o meu trabalho não poderia ser diferente. Acho que (e agradeço imensamente o fato de que muitas mulheres estejam trabalhando desde a mesma perspectiva) registrar a experiência feminina, destacar as singularidades, entender a subjetividade (os momentos que cada uma vive, as histórias que cada uma já viveu até chegar nesse ponto, nessa peça) é a base do meu discurso como feminista. A educação básica/fundamental/avançada brasileira não contribui para que pensemos a subjetividade. Porque a subjetividade de uma certa forma critica o conceito de “identidade”. A identidade feminina é criada/ligada/baseada a um corpo que foi destinado para o limitado. A identidade foi criada sob o poder da moral sexual e nos confina dentro de um grupo, enquanto a subjetividade trata mais sobre as suas particularidades e de alguma maneira valoriza, positiva ou negativamente, singularidades inerentes (aqui especialmente à cada mulher). E desconstruir e ressignificar a ideia de identidade, especialmente quando se trata da identidade feminina, transforma a nossa noção de política. Do que realmente importa e se faz necessário, em termos de espaços, conceitos e categorias. Acho que o feminismo muda a maneira da gente encarar a própria realidade e é isso que eu busco através do meu trabalho. 


6 - Quando as instalações são feitas, como são geralmente as reações das mulheres ao verem seus seios expostos? E para você?

A reação das mulheres ao verem as próprias tetas expostas, penduradas no ar ou na parede, geralmente é bem positiva. É gostoso ver como elas se gostam, acham aquilo bonito visto de fora, mesmo que as vezes não as vejam tão bonitas no espelho. Mas também acredito que cada uma tem uma intenção ao vivenciar esse processo, e sinto que olhar aquela peça pronta, pra elas tanto quanto pra mim, é finalizar aquela intenção, materializar uma vontade ou uma necessidade. E criar sempre uma nova vontade/necessidade.

 7 - Saindo de Barcelona, tendo o trabalho exposto em Portugal  - você sente a diferençaa de público quando apresenta seu trabalho no Brasil? 


Eu acredito - e me alegro muito - que as pessoas mais interessadas no meu trabalho, tanto em termos de pesquisa quanto de estética, são mulheres. Comparando Espanha (especialmente Barcelona que é uma cidade muito diferente do resto machista conservador da Espanha) e Portugal (super conservador também) com o Brasil, a grande diferença é que lá a porcentagem de homens que encaram essas peças com uma certa naturalidade é um pouco maior. Mas tanto lá quanto aqui, o gritante mesmo é a diferença na reação das mulheres que se deparam com aquelas  peças e a reação dos homens, que é uma pitada da mesma (lógico q não é a mesma, é uma demonstração do que seria) reação que eles teriam ao ver uma mulher fazendo topless na praia: um certo desejar, misturado com pudor e uma pitada de ciúmes quando se tratam das tetas da própria companheira. Ou um certo desconforto no caso das tetas maternas. A pornografia também é um importante fator no imaginário desse homem em relação às tetas de uma mulher. Algo que, na minha opinião, só será combatido com teta na cara até eles se acostumarem a ver aquela parte do nosso corpo tão natural quanto a mesma parte do corpo deles. Realidade, naturalidade. Entender que aqueles corpos são os corpos que estão ao redor dele e que não tem nada diferente do dele, exceto o volume voluptuoso das divinas tetas. 

Pra mim o que importa é que no final cada uma reconheça o poder e importância das próprias tetas. Entender que para nós mesmas ali moram um monte de sentimentos gostosos e estranhos, relacionados à nossa própria sexualidade, à nossa vergonha, ao pudor, à sedução, à liberdade psicológica e corporal, à auto-aceitação, etc etc etc.