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28 FEV 2020 • Mulheres Trans

Sara e Diana: história de uma transição de gênero em casal.

Namorada acompanha processo de jovem que se tornou uma mulher trans, enquanto as duas relatam experiência e preconceito em fanzine.

Autora

Pilar Alvaréz

Sara Soler nasceu em Barbastro (Huesca, Espanha), tem 27 anos, é quadrinista e dá aulas. Diana Franco, de Barcelona, também de 27, trabalha como ilustradora de jogos de tabuleiro. Estão juntas há nove anos. No início da relação, Diana não se chamava Diana nem era a mulher trans que é hoje. Há oito anos, fez a confissão mais difícil à sua companheira. Sentia-se mulher e queria “transicionar”, como se costuma dizer no jargão. Diana chama de “evento” ou “processo”. “Ela me deu seu apoio incondicional”, conta, numa manhã de fevereiro, sentada na Gran Via de Madri, enquanto as demais convocadas posam para a foto de grupo. “Há pessoas trans que infelizmente têm que percorrer todo esse caminho sozinhas.”
Diana tem cabelos longos, vestido preto e jaqueta de couro. Quando manifestou seu problema, ambas pensaram que talvez teriam que terminar, passar de namorados a amigas. Talvez não funcionaria. “No final, nenhum dos meus medos se concretizou”, afirma Diana. Sara completa: “Quando ela saiu do armário, eu também saí. Pensava que éramos um casal heterossexual normativo e percebi que eu era bissexual e que, ao longo da minha vida, tinha gostado de várias mulheres mas não havia considerado isso. A partir daí, fizemos uma transição muito profunda.” 

Ambas decidiram contar sua história, “de modo bem humorado”, num fanzine intitulado Us e ilustrado por Sara. “Percebemos que há muita desinformação entre as pessoas”, explica a ilustradora. Em cerca de 20 páginas, e através de personagens em preto e branco, elas descrevem sua experiência “absolutamente pessoal” durante todo o percurso. “O que aconteceu com Sara e comigo é inusual”, explica Diana. O desenho favorito de ambas reflete o momento em que Diana encontrou pela primeira vez uma roupa de mulher com a qual se sentia confortável, “tal como você quer ser”. As duas vão às compras juntas. “Como pessoa trans, tenho muitas inseguranças com meu corpo”, confessa. “Foi muito difícil experimentar meu primeiro vestido. Era algo que nunca tinha feito.” A primeira peça que decidiu levar foi uma jardineira. “Não a comprei porque não havia do meu tamanho. Isso partiu meu coração.”
Na revista elas descrevem com humor a primeira vez em que entraram juntas no banheiro feminino, a reação de suas avós ao saberem da notícia e como, agora que é mulher, Diana Franco se depara com mansplaining toda vez que entra em lojas de miniaturas de RPG, as mesmas que passou mais da metade da vida frequentando. “Você sabe que é preciso pintar os bonequinhos, não? Sabe como jogar? Tem tinta? Os bonequinhos vêm sem montar...”
Elas também ilustram com um fantoche sem nome todas as reações ruins que viveram durante o processo. Afirmações como “pois eu te vejo como sempre, nem dá para notar a sua mudança”, frente a uma Diana vestida com um paletó preto, cabelos longos e franja. Ou a pergunta sobre se ainda tem pênis ou se vai tomar hormônio. “Embora tentemos levar essas situações com filosofia, muitas vezes elas acabam nos desanimando”, diz o personagem que representa Sara Soler nos quadrinhos. “Fazem você se sentir como uma fraude e tiram o seu valor”, acrescenta o de Diana Franco na história, na qual se despedem: “Sabemos que ainda há um longo caminho pela frente, mas esse é o nosso grão de areia.
FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2020/02/26/eps/1582716021_607793.html
Foto: SIMONE SIEL