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01 MAR 2018 • FEMINISMO

Dissemos SIM aos feminismos.

"Não fossem os feminismos, o ciclo permaneceria o mesmo. Os tetos de vidro preparados para nós estariam em estilhaços e teríamos bem mais dificuldade de romper com os machismos nossos e dos outros."

Autora

Nathalia Eberhardt Ziolkowski - Socióloga, Mestra em História das Mulheres e feminista.

Procurando fugir de um senso comum massificante e também das conceituações da pós-modernidade, que tentam, como nós mulheres, escapar a imperante polarização de forças no mundo, aceitei o convite das idealizadoras da REVISTA EMPODERE, Bruna Kujat, Cristiane Duarte e Marcia Paulino, para falar de feminismos. A quem agradeço o chamamento logo na entrada, porque as linhas a seguir irão versar sobre isso, o movimento de promover o ativismo pela agregação.
Os feminismos significam ´experiências comuns entre nós´, foi como Silvia Camurça os descreveu em 2007[1].  É ação de reconhecermos umas às outras em uma época em que nos declaramos todas vadias em marcha para nos livrar, umas às outras, desse estigma que tenta legitimar as violências, ao mesmo tempo em que nossas lutas coletivas carregam nossas histórias tão particulares quanto universais, depois de trazidas para a roda. Isso nos faz um movimento singular que se estende pelo mundo do autocuidado à guerrilha.  Para acabar de vez com as pré-destinações, foi preciso radicalizar.
Em 2010, (recordo um momento para demonstrar a força do auto reconhecer-se) a ocasião era um encontro político de mulheres indígenas, quilombolas, do campo, das florestas e das águas, em Campo Grande (MS). Dona Priscila, moradora da aldeia urbana de Dourados, Jaguapiru, pediu a palavra para dizer: Sou feminista!
Foi um momento de insurreição para todas, porque era como poder respirar fundo, com infalibilidade, e somar mais uma voz a trilha, dessa vez uma voz Guarani Kaiowa. Naquela época os feminismos não estavam tão expandidos e ramificados como hoje, facilitado pela interação dos ciberespaços. Além disso, nos fazíamos questionamentos sobre como aplicar e ampliar as ideias que foram se transformando em conceitos e categorias sociais, como gênero, feminismos e a desconstrução do nascer mulher, para mulheres que não o estão fazendo e não estão querendo teorizar a vida, mas nem por isso se afastam das que o fazem, porque as diferentes expressões estão acrescidas e equivalentes nesse jeito que achamos de nos pensar no mundo.
Uma experiência bem comum, às vezes coletiva, outras vezes singular, é colocar o passado em questão, guardadas as ressalvas do passado construído por nossas avós, ìyádarúgbó, nhandecis, abrindo os caminhos. Nesse fluxo experimental da vida, buscamos novas maneiras de fazê-la acontecer, principalmente quando o jeito que fizemos ontem não foi muito bem, causou um incomodo, uma dor foi despertada, tudo isso faz parte do itinerário vanguardista de lapidação do nosso ativismo. O que surpreende nisso é nossa aptidão para cometer a mudança. 
Mudar exige coragem e ainda que seja uma mudança de desordem pessoal, ela só acontece porque pode ser expressa na força da coletividade. Nenhuma mulher se declara feminista se não houver um feminismo com o qual se identificar. Os feminismos cresceram igual dizem as paraenses, como as águas, ficando maiores à medida que se juntam, viabilizando o levante.
Até menos de uma década atrás, dizer-se feminista era um motivo de orgulho entre nós mulheres e para quem já se reconhecia como tal, mas não havia quem dissesse: “essa menina pensa grande, é feminista”, “lá vai minha filha lutar por seus direitos, é feminista”. Aquele velho ranço que hoje nos rende algumas risadas no bar, não porque deixou de existir, mas porque nós mulheres já o superamos, há não muito tempo atrás era expresso em palavras que faziam coro a duras críticas: “lá vem as feminazis”, “essa daí é feminista, não deixe ‘sua’ mulher conviver muito”, “olha lá as mulheres que não se depilam”, “nervosinhas, histéricas, não sabem conversar como uma mulher”, “feministas são assassinas, querem o direito de matar crianças”, “fuja de relações com feministas, elas podem te engolir vivo” e por aí afora.
A liberdade pública custa a ficar de bem com a gente, a dominação privada há tempos não nos serve mais. Nesse limiar, ficamos entre a nova mulher com compreensões políticas de seus cotidianos e o imaginário social que nos estereotipou. Entre nós era como carregar um mérito, entre os outros o sentido era quase sempre pejorativo. Entende agora porque nossas alianças e reciprocidades são indispensáveis e substanciais?
Precisou o feminismo se popularizar, com muito esforço, para outras mulheres reconhecerem-se em suas experiências comuns, olharem-se para descobrir pontos de apoio, deixando as ultrapassadas disputas pelo páreo domesticador, a nos desagregar. 
Essa é outra importante experiência comum, entender o sentido da empatia e da solidariedade como práticas do bem viver. Uma mulher transexual é uma mulher e vive, enquanto mulher, as mesmas opressões, porém, em geral, em outras circunstancias, diferentes das vividas por uma mulher não transexual. Nossa experiência comum: tornarmo-nos mulheres nesse mundo de meu Deus – a autêntica imagem e semelhança do homem (não transexual). Desde a década de 60, Beauvoir alertava para o fato de que estávamos nos tornando mulheres para um sistema que já nos definiu antes mesmo de chegarmos aqui.
Não fossem os feminismos, o ciclo permaneceria o mesmo. Os tetos de vidro preparados para nós estariam em estilhaços e teríamos bem mais dificuldade de romper com os machismos nossos e dos outros.
É pelo movimento de empoderar-se, avançando por vários caminhos, que podemos enfim falar sobre nossas experiências comuns. Empoderar é um verbo de ação coletiva, cunhado pelos feminismos. A forma e a força dos feminismos vêm da nossa expressividade coletiva, essa capacidade de subir ao topo e dar a mão para que a outra chegue; olhar para outra mulher como se olhasse para o próprio espelho; de apoiar sua forma de expressão e sua liberdade, mesmo sem compreendê-la por completo; é nunca crescer diminuindo a outra; é ouvi-la antes de falar e falar sabendo que será ouvida por todas.
Todas juntas fazemos a diferença, sem contradições. A revolução é nossa.
 
 
[1]CAMURÇA, Silvia. ‘Nós Mulheres’ e nossa experiência comum. Cadernos de Crítica Feminista, Número 0, Ano I, Recife: SOS CORPO, 2007.