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10 AGO 2018 • TEXTOS COLABORADORAS

INCÔMODO

Autora

Leli Baldissera

Quando eu nasci, minha mãe comprou um par de brincos de ouro para colocar nas minhas orelhas. Comprou com o dinheiro que não poderia gastar. Apesar dos quilates, meu corpo não aceitou. As orelhas infeccionaram de tal forma que o uso de brincos foi abandonado e o par foi vendido. Com a chegada da pré-adolescência, eu quis furar novamente as orelhas, queria muito usar brincos, todas as meninas usavam. Fiz dois furos em cada orelha, para doer tudo de uma vez. Agora os brincos eram de aço cirúrgico, os furos foram feitos na farmácia, e eu tinha doze anos. Meu corpo, novamente, não aceitou. Mas dessa vez eu tinha forças para lutar contra ele, e lutei por anos, tratando da dor e das infecções e inflamações que vinham inevitavelmente. Ouro, aço e latão. Mulheres usam brincos, é bonito, a dor não importa. Aprendi a driblar os incômodos e utilizar estratégias para manter os furos abertos, pois se não controlasse, eles fechavam, e abrir novamente era dolorido. Agora, já faz algum tempo que eu parei de brigar com minhas orelhas. Deixei meus furos fecharem, parei de me violentar, mulheres não precisam usar brincos. Se eu quiser, eu posso abrir os furos novamente, mas vai doer, vai sangrar.

Esse relato tem camadas de significados pessoais e sociais. As mulheres são marcadas como fêmeas desde que nascem, abrir dois buracos em suas orelhas é uma forma de fazer isso. Nosso corpo é perfurado sem que possamos dizer não. É necessário deixar bem claro quem pertence ao sexo feminino, e isso precisa estar visível, precisa ser físico. A menina já começa desde muito cedo a cumprir sua missão de ser bonita e satisfazer aos olhares.

Eu continuo achando brincos lindos e, se pudesse, usaria e muito. Às vezes ainda me aventuro nesse processo dolorido, como em tantos outros que agem em favor da estética. Mas é sempre bom pensar sobre os motivos pelos quais nos machucamos e machucamos as meninas. Conseguir se olhar e se respeitar em detrimento do social, quando possível, é importante. O princípio da não violência contra si mesma vai de encontro com o abandono de vários comportamentos que foram criados para a construção da ideia de feminilidade.